Um ativista gay cis veio me dizer que “eu tenho que entender” que casamento civil igualitário move mais direitos que “mudança de nome”, que portanto há mais comoção e que “tenho que entender que gays estão há mais tempo na luta”.
Tudo isso na tentativa de me explicar a invisibilização, secundarização, ignorância em relação à demandas específicas das pessoas trans dentro dos movimentos LGBTs.
Hoje um homem gay cis veio me dizer que tal site também está contemplando pessoas trans – ainda que eu tenha apontado para ele que as últimas QUARENTA reportagens no site, APENAS duas falavam sobre as transgeneridades, uma em que trazia a travesti Conchita (olha que exótico, ela usa barba!) e outra em que a Cher mencionava que tinha um filho transexual para dizer que estava aderindo ao apoio nas manifestações contra o governo russo.
Apesar do site se querer representar a causa LGBT.
Veja que desculpas para continuar a justificar invisibilização e ignorância sobre as demandas especificamente trans SEMPRE não faltam.
Primeiro: ter direito a ter documentos de acordo com a sua identidade de gênero é algo anterior a ter desejo de se casar, pois as pessoas podem não querer se casar, mas com certeza ABSOLUTA terão de apresentar seus documentos em diversos lugares – e sofrer vexames e humilhações quando se é trans: no hotel, no motel, na escola, na faculdade, no aeroporto, na casa noturna, nas blitzes policiais, na delegacia, nos concursos públicos, para fazer contratos de aluguel, de compra e venda de apartamentos, automóveis (…) Há um sem número de situações em que seus documentos são exigidos e, inclusive, nalguns casos, exige-se inclusive documentos de pessoas trans que não se exigiria de quem não é trans, pois a identidade de gênero que está sob constante vigilância e validação é a identidade das pessoas trans.
De forma que, dizer que casamento move mais direitos e gera mais comoção? Gera mais comoção por que simplesmente o debate sobre as leis de identidade de gênero NÃO EXISTEM, não são possibilitados, não são tocados, não há interesse de se falar sobre o assunto em todos os espaços que supostamente também estão lutando por direitos de pessoas trans – em que pesem as exceções.
Quantos movimentos, espaços, veículos, revistas que se dizem LGBT fazem questão de que pessoas trans ocupem esses espaços? Reivindicam que pessoas trans falem sobre pessoas trans? Lutem para que o protagonismo trans seja compartilhado com as demais pessoas/identidades? Outra coisa, as pessoas trans estão na luta há tanto tempo quanto os gays cis: vamos esquecer, como VIA DE REGRA se faz, que transmulheres ativistas históricas estiveram presentes e foram fundamentais no levante de Stonewall, que alavancou a luta por direitos LGBTs em todo o mundo, como por exemplo Marsha Johnson e Sylvia Rivera.
Vamos sequestrar as demandas específicas de pessoas trans, vamos diluí-las, e vamos fingir desde sempre que quando se fala em demandas de gays cis, automaticamente se está falando em demandas trans: por que né, gays cis também estão lutando para ter nome e gênero respeitados, entre outras especificidades. Não adianta apenas mencionar a palavra transexual ou travesti no seu texto, na sua fala, no seu debate, achando que com isso contempla a causa trans. Não adianta trazer fatos de pessoas trans pelo mesmo viés que a grande mídia e grande massa sempre fazem: pelo campo do exótico, do patológico ou discriminando que transmulheres são na verdade “homens muito gays que querem ser mulheres” e transhomens são na verdade “mulheres muito lésbicas que querem ser homens”.
NADA DISSO significa que você está abarcando a luta contra a transfobia, NADA DISSO significa que as pessoas trans estão contempladas.
E se começarmos a dar vez e voz às pessoas trans? E se começarmos a empoderar essas pessoas se tornarem sujeitos do discurso e não objetos de estudo e análise – como acontece também por via de regra? E se começarmos a exigir que pessoas trans falem, estejam presentes, que a luta trans seja debatida? Enquanto não fizermos tudo isso, fica muito fácil jogarmos sempre a culpa da invisibilidade trans nas próprias pessoas trans.
E bem, se você não conhece do que se tratam essas demandas específicas, dizer que não fala sobre por esse motivo, está apenas camuflando a verdade: VOCÊ NÃO QUER DAR ESPAÇO para a discussão sobre isso, pois se quisesse, quem está sem informação, corre atrás delas.
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