Eu passei algum tempo da minha vida (uma vida sem internet, sem Google, sem coletivos LGBTs que fossem LGBTs, eram apenas GLS) me identificando como homem gay – claro que, um homem gay extremamente afeminado.
Desde muito criança eu já sabia que não era como os meninos, eu nunca de fato me senti pertencendo ao grupo dos meninos.
Nunca nada que fosse dito exclusivamente do universo masculino me interessou, pelo contrário, causava-me repulsa.
Ao contrário, tudo que era pertinentemente feminino, dava-me alívio e me fazia sonhar, ao passo que estar com os meninos e ser vista como mais um deles, era extremamente enojante para mim.
Mas, tendo nascido com determinada anatomia considerada apenas própria para um homem, evidente que desde então fui tratada pela família e sociedade como homem.
Esse rótulo “homem” era algo assombroso para mim, e quanto mais eu tentava me desvencilhar dele, mais jogavam-me na cara: “você é um homem, veja o que você tem entre as pernas, você precisa se comportar como homem, você precisa honrar o que tem”.
Ouvi isso um sem número de vezes da minha família, ainda muito criança.
Havia no “você é um homem” uma maldição, uma imposição de que eu com certeza absoluta era uma pessoa doente, amaldiçoada pelo deus cristão anunciado pelos meus pais por não conseguir me encaixar dentro desse rótulo. E, de fato, sentia que morreria a qualquer momento dessa doença. Aí fui crescendo e o rótulo mudou, passei a ser “viadinho”, “bichinha”, “gayzinho”, “boiola”, “bambi” (…)
Batizaram-me os vizinhos, os colegas na escola e usou minha família todas as vezes que queriam me punir.
“Essa bicha tem que apanhar para aprender a ser homem”.
“Você quer continuar a ser tratado como bicha pelos outros, ou prefere aprender a se comportar como homem”? “Vira homem bicha!” Durante infância e boa parte da adolescência, se ao mesmo tempo eu acreditava que ser gay era algo extremamente ruim, afinal de contas, a realidade ao meu redor demonstrava-me isso o tempo todo: “Você precisa aprender a andar igual homem, homem não rebola.”
“O que é isso? Querer brincar de boneca? Onde já se viu? Isso é coisa de viado”.
“Vai pra rua jogar bola, empinar pipa, igual homem faz”. “Cara você é muito bicha, você fala como bicha, sua letra é letra de bicha, você até abre a boca como bicha”. Em contrapartida, o rótulo “gay” afastava-se em todas as afirmações do rótulo “homem”.
Todos a minha volta sempre usaram todos os sinônimos para “homossexual” como antônimo para “homem”.
Sempre evidenciou-se que não daria para ser homem e ser gay ao mesmo tempo; de forma que assim, eu encontrava algum conforto em terem me categorizado dentro do grupo dos homossexuais.
Afinal de contas, isso significa àquela altura, que eu não era homem.
O tempo passou e eu conheci um coletivo GLS (sim, só falavam sobre gays e lésbicas, nenhuma vírgula a respeito de pessoas trans).
Foram então as primeiras pessoas que tive contato que supostamente seriam como eu – passei anos da minha vida sendo taxada como “a bicha afeminada” da rua, do bairro, da escola, sem conhecer ninguém que sofria o mesmo que eu.
O máximo de contato que eu tinha com pessoas homossexuais, eram as ridicularizações/condenações embasadas em estereótipos que se via nos programas humorísticos da TV.
Dentro desse coletivo, tive um grande alívio por parecer finalmente ter encontrado os meus iguais.
Finalmente poderia ser eu sem medo de represálias, agressões. Finalmente ganharia humanidade. Pois bem, rapidamente descobri que não só não me encontrei entre eles, como também sofri tanta agressão quanto fora do grupo. Percebi que os gays tomados como “afeminados”, “pintosas”, que não se encaixavam dentro do ideal cisheteronormativo de homem, era sempre tomado como figura caricata, parecendo ter como único propósito de vida uma vaga para o concurso de drag na boate da moda.
Percebi que eu não servia para fins afetivos e raramente sexuais para aqueles que como eu, também eram vistos como gays.
E, ao contrário de mim, todos pareciam super bem resolvidos com o que queriam para si mesmos, e como se viam dentro da sociedade.
Percebi bastante misoginia e machismo dos gays com quem convivi, dentro de guetos onde ter qualquer característica feminina só podia servir para se dar boas gargalhadas.
As bichas fortes, másculas, musculosas para namorar e transar, as bichas pintosas, femininas, para gente dar risada.
Quantas mil vezes ouvi de “amigos” gays que eu não poderia ir em tal reunião familiar deles caso não “desmunhecasse” menos, caso não conseguisse “fingir” ser hétero? Percebia claramente que minha companhia era reprovada por gays que só poderiam demonstrar ser gays dentro da balada gay, fora dela, eles tinham que interpretar o papel engessante do que vem a ser homem.
Fora da balada, eles não poderiam conversar comigo, e/ou não poderiam ser vistos em minha companhia, afinal, já pensou se o pegam com uma “bicha tão pintosa”? Percebi que a amizade só existia nos guetos, fora dele, eu estava aquém de ser o amigo gay que eles poderiam orgulhar-se de ter amizade.
Ser afeminado, desmunhecar, revelado como bicha pintosa em espaços gays denunciava-se para mim como uma chaga.
Havia um horror maquiado inclusive dos iguais a mim, mas que precisavam alucinar que não o eram.
Vi muitos gays femininos sustentarem a camisa de força da masculinidade forçada para serem aceitos por outros homens gays.
Caricaturas de si mesmos, e foi no que eu me tornei, na esperança de aceitação: uma caricatura.
Um dia parei e revi a minha vida, repensei o que eu estava fazendo comigo mesma: nada daquilo me dava prazer, eu não era como aquelas pessoas, eu não estava feliz.
Encarar esse rótulo “gay” só foi mais confortante até o momento que eu passei a conviver com os gays, a descobrir que eles não eram eu, eu não era eles – nossos interesses eram muito diferentes.
Forcei uma personagem, tentei castrar minha liberdade interior, na esperança de encontrar felicidade e tudo que consegui foi mais sofrimento.
Sentia-me como alguém que tinha naturalmente falhado: para o mundo e para mim mesma.
Quando percebi que não podia ser gay, pensei: e agora, o que sou? Senti-me tal e qual o quati da crônica “Um amor conquistado”, de Clarice Lispector, que nos traz a história de um quati que sempre foi tratado como cão pelo seu dono, em que a autora nos diz assim: “Fiquei olhando esse quati que não sabe quem é.
Imagino: se o homem o leva para brincar na praça, tem uma hora que o quati se constrange todo: ‘mas, santo Deus, por que é que os cachorros me olham tanto?’ Imagino também que, depois de um perfeito dia de cachorro, o quati se diga melancólico, olhando as estrelas: ‘que tenho afinal? que me falta? sou tão feliz como qualquer cachorro, por que então este vazio, esta nostalgia/ que ânsia é esta, como se eu só amasse o que não conheço?'” Eu era um quati sendo tratada como cachorro, um quati a quem todos viam algo de estranho e peculiar, mas que na falta de conhecimento do que seria quati, só poderia mesmo ser cachorro, ainda que um cachorro muito diferente.
Eu era na verdade alguém a quem os lugares gays onde eu estava, as pessoas gays que eu conhecia, não reconheciam, não encaravam como “dos seus”.
Para sempre “uma bicha muito pintosa, aliás, pintosa não! Mancha.
[Sim, havia as gradações, mancha era um estágio muito avançado de feminilidade].”, ouvindo de muitos deles: “já pensou em virar travesti? já pensou em ser drag? você leva muito jeito” [consideravam que travesti e drag dava no mesmo].
Sabia enfim, que eu tinha sobrado no mundo e que meu problema era insolúvel: não poderia ser um homem [hétero], isso desde criança eu sabia; também não poderia ser [homem] gay, foi o que a experiência prática me contou; o que seria eu? Do alto de toda a minha ignorância, meu pai comprou um computador a duras penas, pagando em dezenas de prestações – em uma época em que computador era artigo de luxo.
Usando da internet discada, que caia a cada 3 minutos em uma velocidade que atualmente mataria qualquer um do coração; descobri o encantador mundo das travestis e das crossdressers [a quem num primeiro momento eu só conseguia diferenciar solucionando para mim que travestis seriam aquelas que tinham silicone no corpo] – até então, figuras distantes do meu universo gay, em que sempre tomavam as travestis como uma “entidade apartada”, sempre muito grossas e violentas.
Cansei de ouvir da boca dos meus amigos gays o medo que eles tinham das travestis, taxadas como sempre prontas para confusão e briga – você vai introjetando isso de forma que assimila que ser travesti é em suma, ser um homem extremamente gay que vai se envolver em escândalos, invariavelmente com a gilete dentro da boca, a fim de defender-se dos oponentes.
E isso não, eu não poderia ser – mas a internet me proporcionou de longe admirá-las.
Ler suas histórias de lutas, de alguma forma passei a me sentir conectada com elas.
Descobri que ser travesti não era necessariamente ser alguém que arma escândalo e não tem educação, como sempre pintaram para mim.
Foi quando, pouco a pouco, passei a me apropriar dessa identidade considerada ainda mais feminina.
E com isso, vi diversos amigos gays se afastarem.
Se como bicha afetada eu já não servia, passando a me identificar de forma ainda mais feminina, mudando vestuário, usando maquiagem, deixei de ser até companhia para gargalhadas.
Era como se eu tivesse atravessado um portal, renunciar à identidade gay, assumindo e respeitando a minha identidade feminina era dar adeus a um círculo de supostas amizades e a um universo que nunca foi meu.
E, por incrível que pareça – ou não -, de repente me vi mais acolhida pelos héteros que pelos gays. Por fora a renúncia, por dentro um sentimento de felicidade, de encontrar-se consigo mesma, de descobrir quem eu era, de entrar em contato com as minha raízes, negadas por todos à minha volta, e obrigada a negar em mim mesma.
Até o dia que conheci uma amiga mulher transexual, que confidenciou-me toda sua trajetória; foi quando ouvi a palavra “transexual” de forma atenta, uma palavra que raramente tinha ouvido, perguntando-me o que seria de fato aquilo que ela me contava.
Até então, acreditava eu que ser travesti era ser na verdade o suprassumo do homem gay no quesito feminilidade.
Essa amiga me impulsionou e me abriu um novo horizonte, ela demonstrou-me pela primeira vez que genital não configurava gênero.
Foi quando passei a me interessar por tudo que fosse possível dentro dos estudos da transexualidade e espantei-me: eu não estava estudando e entrando em contato com o alheio, com o outro, eu entrava em contato comigo mesma.
E o resto, o resto virou história: assumi-me como mulher, e nessa longa trajetória até o encontro comigo mesma, chorei muito, sofri muito, fui extremamente discriminada por pessoas que também eram discriminadas, vi bastante ódio às mulheres, às identidades femininas, muita misoginia, muita transfobia disfarçada ou escancarada.
Minha vida alterou-se para sempre, mas nunca mais deixei de ser eu – um eu que ficou durante tempos perdido no elo da história.
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